Esquecerei os episódios dos animes e o recente filme protagonizado pela bela Scarlett Johansson, e dissertarei tão somente sobre a animação de 1995, um filme genial que para mim é uma verdadeira obra prima. Ghost in the shell é uma espécie de utopia cibernética situada num futuro não muito distante. Em meio ao ambiente cosmopolita da icônica cidade de Tokyo, androides biomecânicos convivem juntamente aos humanos numa existência tecnocrata onde Kamisama (Deus) aparentemente cedeu seu posto para os códigos binários e ao quantuum. A humanidade não somente alcançou a tão almejada imortalidade, mas também um novo plano de existência onde a vida se perde e se une às nuvens de dados. Nesse cenário é perfeitamente possível transpor as memórias humanas num corpo artificial e carrega-las de modo ao corpo artificial existir como sendo um autêntico humano. Contudo, esse modo de vida sucinta muitas crises de identidade, pois afinal, somos as nossas memórias ou algo além disso? Tal problemática aumenta quando há a possibilidade de se estar vivendo sob o amálgama de falsas memórias.
Os androides biomecânicos, isto é, os humanos que transpuseram seus cérebros e memórias para um corpo artificial, gozam de uma existência onde também é possível existir sem um corpo, fazendo-se uso explícito e direto do inconsciente coletivo que é uma grande rede onde as mentes se conectam e partilham informações entre si. Ao contrário da maioria dos filmes de ficção científica onde a criatura humana entra em conflito com a tecnologia, em Ghost in the shell a tecnologia é uma verdadeira mãe que possibilita a humanidade chegar mais perto da própria vida e isso é bastante irônico pois ao mesmo tempo que a tecnologia os afasta da natureza e de tudo aquilo que é oficialmente considerado como sendo vida, a tecnologia assim também os aproxima da vida pois quanto mais complexa se torna a tecnologia, mais semelhante ela fica para com a vida, revelando que no fundo toda a criação de Deus é fruto de uma magnânima tecnologia. O filme narra a história de uma agente que combate hackers especialistas em burlar os softwares dos androides biomecânicos de maneira a invadirem o inconsciente coletivo e implantarem vírus nocivos à humanidade tanto orgânica quanto a artificial (sendo que praticamente não existem diferenciações entre os humanos orgânicos e os artificiais). Essa agente além de estar combatendo os hackers, também se encontra num combate interno na tentativa vã de entender a origem de si mesma. Não se sabe se algum dia ela fora humana ou se já nascera na condição de ciborgue com memórias implantadas. Isso é muito interessante pois abre a possibilidade da existência de almas artificiais. Ghost in the shell brinca a todo instante com o real e o irreal no velho dilema: o que realmente é real ou irreal? Bom, se quiser saber a minha opinião: não acredito que exista algo irreal. Tudo o que possui algum tipo de existência é real, pois a partir do momento em que algo existe, esse algo é real. Simples assim.
Para uma produção de 1995 foi extremamente interessante observar o modo praticamente premonitório como trataram a questão de algo semelhante a internet e os gadjets atuais. Ghost in the shell evoca o transhumanismo e dá uma pista sobre o que será o nosso futuro: uma fusão entre a ficção e a realidade com a tecnologia exercendo a função de pontífice.




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